Crise do capitalismo e luta de classes [*]

Retomamos o boletim do CeCAC em uma nova conjuntura. Uma conjuntura em que a crise latente e prolongada (desde a década de 1970) do imperialismo encontra-se em uma fase aberta, mais aguda, constituindo-se na maior crise do capitalismo desde a grande depressão dos anos 30 do século passado, com tendência a se aprofundar e se arrastar por longo período. Não é uma crise localizada, do subprime, da esfera financeira, como inicialmente trataram de alardear os arautos das classes dominantes. É uma crise do processo de acumulação capitalista, de sobreacumulação de capital e superprodução de mercadorias.

Do ponto de vista do marxismo, as crises econômicas do capitalismo são inevitáveis, são resultado das contradições inerentes deste modo de produção, como a tendência à queda da taxa média de lucro, o permanente processo de concentração e centralização do capital, a produção social e apropriação privada, com concentração de riqueza em um polo e miséria no outro.

O modo de produção capitalista tem como fundamento a exploração da força de trabalho, a produção de mais-valia, e a tendência à intensificação da exploração. É a férrea lei do valor, a valorização do capital, a sua reprodução ampliada. E, na perspectiva do capitalismo, a principal característica das "saídas da crise " é o aprofundamento da intensificação da exploração, o aumento da taxa de mais-valia, a taxa de exploração.

A forma como a crise do imperialismo se apresenta em cada conjuntura é também expressão da luta de classes que permeia todo o processo de produção capitalista; expressão da contradição fundamental proletariado x burguesia, explorados x exploradores.

Somente a luta de classes, a resistência e força do proletariado e demais classes oprimidas, impõe limites à exploração capitalista, enfrenta a força e ofensiva da burguesia. Do ponto de vista do proletariado, das classes dominadas, as contradições do modo de produção capitalista - e a sua contradição fundamental: burguesia x proletariado - só são superadas pela revolução, com a tomada do poder de Estado pelo proletariado e seus aliados, num longo processo de transição para o socialismo e o comunismo, com a derrota definitiva do capitalismo e o fim das sociedades divididas em classes.

O capitalismo não cai de podre, apesar de crises mais ou menos profundas. E, nesse sentido, a crise, um período de grande queima de capital, coloca para o sistema imperialista, para as classes dominantes, a possibilidade e a necessidade de "saída da crise" (mesmo que essa "solução momentânea" crie as condições de crises mais violentas no futuro) e retomar o processo de valorização do capital, retomar a taxa média de lucro. A atual crise, como exemplo, está condicionada pela forma de contrarestar a crise anterior, que implicou em uma reconfiguração da economia/produção mundial e num aumento exponencial da valorização do capital na esfera financeira, a valorização fictícia do capital. Como afirma Marx, em "O Capital": "As crises não são mais do que soluções momentâneas e violentas das contradições existentes, erupções bruscas que restauram transitoriamente o equilíbrio desfeito".

Com a crise, há o reforço da tendência do imperialismo para a violência, a repressão, a fascistização e ofensiva ideológica, a militarização e as guerras contra os povos a fim de impor e garantir a intensificação da exploração, aprofundando a barbárie, assim como a tendência à cooptação política para tentar conter e amortecer a luta de classes.

Por outro lado, o agravamento da crise - e seus efeitos concretos para as massas populares: a recessão, o desemprego, o ataque aos diretos conquistados pelos trabalhadores, o arrocho salarial, o aumento da miséria - exacerba todas as contradições do sistema imperialista (com destaque para as suas quatro principais contradições: interimperialista; países imperialistas x povos dos países dominados; capitalismo x socialismo; burguesia x proletariado) e a luta de classes. E, assim, amplia a revolta e resistência dos povos contra a intensificação da exploração e o aumento do desemprego e da miséria. Ao expor de forma mais escancarada estas "mazelas" do modo de produção capitalista, a crise - com suas contradições e limites - estimula ainda mais esta resistência.

Para o proletariado e demais classes oprimidas, a crise coloca o objetivo - enquanto perspectiva de longo prazo - de libertar-se da exploração, derrotar o imperialismo, o capitalismo, fazer a revolução.

É a partir do estágio da luta de classes, da correlação de forças, que devemos analisar a conjuntura e as tarefas dos explorados. A atual conjuntura é desfavorável para as classes dominadas: quem mantém a iniciativa política são as classes dominantes, no geral, em nível internacional. Há ainda um quadro de defensiva do proletariado e seus aliados e de ofensiva do imperialismo. Defensiva marcada pelo reformismo e a conciliação de classes no movimento operário e popular em nível mundial.

No entanto, esta é uma conjuntura que abre novas possibilidades para a classe operária e demais classes oprimidas. Mas para que a crise leve a um acúmulo de forças no sentido revolucionário é fundamental a elevação do nível de consciência e organização dos explorados e oprimidos, a consciência dos limites do capitalismo, ou seja, de que não é possível humanizá-lo, não é possível conciliar interesses antagônicos, alcançar igualdade entre exploradores e explorados.

A elevação do nível de consciência do proletariado e os dos povos está integrada ao crescimento do seu nível de resistência e luta, que tem como base os seus interesses concretos e imediatos, econômicos, políticos e, no mesmo processo, a construção/reconstrução/fortalecimento de partidos revolucionários, temperados na luta de classes, forjando a teoria e a prática revolucionárias. Se a correlação de forças é desfavorável, percebe-se, entretanto, um avanço se comparado ao estágio de defensiva política e ideológica de dez, quinze anos atrás, quando prevalecia o "pensamento único" "neoliberal". As massas, no mundo, vêm aumentando seu nível de resistência e luta, criando melhores condições para as tarefas revolucionárias.

Relembramos nossas palavras em texto de 2003:

"(...) as classes dominadas no Brasil estão ainda num processo, no geral, defensivo, apesar de que a eleição de Lula expressou seu grau de insatisfação' e sabemos que é na luta de classes que a classe operária constrói suas organizações de luta sindical e política e sua teoria. E nesta conjuntura de defensiva das classes dominadas, em que temos um metalúrgico [com as posições políticas de Lula] como presidente, temos de levar em consideração que elas se vêem na necessidade de encaminhar suas lutas sem contar com sua organização sindical e política de luta.

O que diz o marxismo-leninismo é que a história é a história das lutas de classes, que são as massas exploradas que fazem a história e a fazem na luta de classes sob a direção da organização política da vanguarda do proletariado. E que o partido não poderá assumir esse papel de direção, que pressupõe a educação das massas, sua mobilização e organização, se não estiver profundamente ligado a ela, se não fizer corpo com a classe operária e com as massas exploradas nos desafios de suas reivindicações objetivas econômicas e políticas. Porque, quando as massas se põem em movimento, só aceitam a direção política do partido se este já há muito tempo faz corpo com elas em seu dia a dia, se já está há muito tempo unido a elas na longa, difícil, heróica, tenaz, e no mais das vezes silenciosa, luta contra a exploração econômica do regime capitalista, seguindo uma linha justa."

Nós do CeCAC reafirmamos nosso compromisso de contribuir neste processo, estimulando e participando de lutas de massas, contribuindo para a reconstrução do partido revolucionário, com sua teoria justa, ampliando o contato e relacionamento com forças e lideranças políticas do campo popular, tendo como critério da verdade o desenvolvimento da prática. Estamos ampliando as atividades do CeCAC a fim de congregar mais e mais companheiros que estão na militância política, ampliando o trabalho de formação, com o estudo do marxismo-leninismo, "sem perder de vista o primado da prática sobre a teoria, isto é, o primado da luta de classes na economia e na política sobre a luta de classes na teoria."

[*] Reproduzido do Boletim do CeCAC - junho/julho-2009

Esta página encontra-se em www.cecac.org.br

30/junho/2009