Antonio Carlos Nunes Carvalho nasceu em 1º de dezembro de 1948, na cidade de Caxias no Maranhão. Em meados da década de 1960, já estudando em São Luiz (MA), participa do movimento estudantil secundarista.

Em 1967, transfere-se para o Rio de Janeiro com o objetivo de trabalhar e estudar. Cursa o politécnico (pré-vestibular) da UFRJ e freqüenta o restaurante “Calabouço”, convivendo com as lideranças mais combativas do movimento secundarista. Faz exame vestibular no final de 1967 e ingressa na Faculdade de Engenharia da UFRJ.

Este período da conjuntura brasileira é marcado pelo crescimento da resistência popular contra a ditadura militar, implantada pelo golpe de 31 de março de 1964, com destaque para as lutas estudantis.

É neste contexto que Tonico – como era conhecido Antonio Carlos -, em 1968, já cursando a engenharia da UFRJ, participa ativamente das mobilizações estudantis, das lutas em defesa do restaurante “Calabouço” e se engaja como militante de vanguarda no movimento universitário, sendo respeitado pelos seus colegas da universidade por sua combatividade.

Tonico se integra à luta contra a ditadura militar, aproximando-se da organização comunista DI-GB e se incorpora à luta dos trabalhadores e do povo brasileiro contra a opressão e o imperialismo, pela liberdade e o socialismo.

Participa na organização da histórica Passeata dos 100 Mil, em protesto contra o assassinato do estudante Edson Luís, pela polícia, durante a invasão do restaurante Calabouço. É a maior manifestação popular contra a ditadura militar.

 

 

Edson Luis, assassinado pela polícia em 29/03/1968 na invasão do 'Calabouço'
Passeata dos 100 mil, em julho de 1968, em repúdio à truculência da polícia e contra a ditadura

Tonico esteve presente como delegado eleito no XXX Congresso da UNE em Ibiúna (12 de outubro de 1968) onde foi preso juntamente com cerca de mil universitários.

Foto da Agência Estado publicada na revista Época de 05/10/1998, mostra Tonico, ao centro, quando cerca de
1000 participantes do congresso são presos pela polícia

Torna-se comunista e, em 1969, incorpora-se à resistência armada contra a ditadura já como militante da DI-GB, que adotava uma estratégia socialista para a revolução brasileira, sob inspiração de Che Guevara, dentro da perspectiva de rompimento com o reformismo do PCB, caracterizado, na época, pela linha pacífica de luta contra a ditadura.

Em 2 de janeiro de 1970 dirigia um carro, na companhia de outro companheiro, quando foi abordado por policiais. Foge a pé, consegue desfazer-se de material político contra a ditadura. Mas os policiais, ao realizarem uma vistoria no veículo, encontram uma bomba.

Preso e encaminhado ao quartel da Polícia do Exército, na rua Barão de Mesquita (Tijuca), sede do DOI-CODI no Rio de Janeiro, foi torturado violentamente por 30 dias. Resistiu heroicamente, não fornecendo nenhuma informação a seus algozes. Afirmava sempre que não tinha conhecimento da bomba no carro, que fugiu da polícia pelo fato de estar dirigindo sem carteira de motorista e, portanto, que este era o motivo da sua prisão. O comportamento exemplar de Tonico preservou o MR-8 e os companheiros que estavam na clandestinidade e não deu um único dado que pudesse incriminá-lo. É transferido para o DOPS, onde permaneceu até o dia 25 de março de 1970, quando foi libertado.

Durante a prisão no DOI-CODI, Tonico presencia o bárbaro assassinato do dirigente comunista Mário Alves, do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), torturado até a morte. Ainda sob a ditadura, Antonio Carlos dá testemunho público sobre as condições da morte de Mário Alves, desmentindo as versões “oficiais”. A conduta do jovem militante honrou as tradições dos comunistas frente a seus inimigos de classe, característica que marcou o caráter e a trajetória de Antonio Carlos.

Ao sair da prisão em abril de 1970, continua sua militância no MR-8. Volta a estudar na Faculdade de Engenharia da UFRJ, prossegue na organização da resistência armada. Em 1971, prepara sua transferência para a Bahia a fim de se integrar, com Lamarca, Zequinha e outros companheiros do MR-8, em um novo trabalho político, entre os camponeses, em Grotas de Macaúbas, com a perspectiva de organizar o povo para a luta armada contra o regime. Ao chegar a Salvador, identifica a ação da repressão, que impossibilita sua ida ao interior e o faz voltar ao Rio de Janeiro.

A ditadura militar intensifica a repressão, a prática da tortura, assassinato e desaparecimento das lideranças políticas, conseguindo golpear a maioria das organizações revolucionárias que empunhavam armas contra o regime.

Em 1972, Tonico reinicia o trabalho político de organização da luta dos estudantes e da reconstrução das suas entidades aniquiladas pela ditadura.

Em reunião realizada no Chile, nas “Resoluções do Pleno de dezembro de 1972”, o MR-8 faz autocrítica do aspecto militarista da luta armada empreendida pela Organização contra a ditadura, colocando como centro da atividade partidária o trabalho de mobilização e organização das massas populares:

“A esquerda revolucionária (...) enveredou pelo ”esquerdismo”. Realizando uma negação superficial do reformismo, não conseguiu adotar uma linha política correta e ligar-se estreitamente às massas. Em sua maioria, incorreu numa concepção pequeno-burguesa e militarista de revolução. Ao invés de organizar a resistência dos trabalhadores, substituiu-a pela sua resistência armada direta. Os resultados práticos de tal concepção foram desastrosos. As massas ficaram abandonadas a si mesmas e grandes parcelas da esquerda foram aniquiladas pela ditadura militar.”

Neste período, início e meados da década de 1970, Tonico participa de forma destacada da reorganização do MR-8, que atuava numa dura clandestinidade. A partir de 1973, intensifica sua participação no movimento estudantil e torna-se uma das principais lideranças universitárias, na mobilização por seus interesses específicos, na reconstrução das entidades estudantis na UFRJ, e em todo o Estado, contribuindo de forma significativa para a reconstrução da UNE, União Nacional dos Estudantes.

Em 1974, o MR-8 assume a tática política de luta pelas liberdades democráticas com uma perspectiva de derrubada revolucionária da ditadura, inspirando-se nas posições de Lênin. A partir desta concepção, com o objetivo de intensificar as denúncias políticas da ditadura, participa do processo eleitoral. O MR-8, com a Ação Popular Marxista-leninista (APML), apóiam e coordenam a candidatura a deputado federal de Lizâneas Maciel, advogado defensor dos direitos humanos e destemido opositor à ditadura, que foi eleito com cerca de 100 mil votos. A luta democrática e popular contra a ditadura avança nos anos de 1975 e 76.

Pela persistência, tenacidade e coragem na luta estudantil e contra a ditadura, pelo respeito e liderança conquistada, Antonio Carlos, em 1976, candidata-se a vereador na cidade do Rio de Janeiro, pelo MDB, com o objetivo definido no próprio panfleto de campanha eleitoral:

Defendemos assim a utilização do processo eleitoral como instrumento de mobilização em torno das bandeiras democráticas, do fortalecimento dos melhores elementos do partido da oposição [MDB] e acima de tudo para ajudar a criar e fortalecer os meios realmente capazes de transformar a atual situação, quais sejam, as organizações independentes do povo em seus locais de trabalho, de estudo e de moradia.”

Com uma campanha eleitoral combativa e memorável, que teve como centro a vigorosa denúncia da truculência e do caráter ditatorial do regime militar, da miséria do povo, do arrocho salarial, Tonico é eleito vereador em 15 de novembro com cerca de 40 mil votos. Como vereador, não houve causa popular no Rio de Janeiro que não contasse com seu apoio e participação, transformando seu gabinete num espaço vivo de reorganização do movimento popular, nas lutas pelo fortalecimento das oposições sindicais, nas lutas de fábrica, contra o arrocho salarial e pela reposição dos salários, pela liberdade sindical, das associações de bairro, do movimento contra o aumento do custo de vida, na luta dos camponeses pela terra, e na reconstrução das entidades operárias, estudantis e dos favelados, na resistência cultural que fervilhava nas universidades e morros cariocas.

A atuação combativa de Antônio Carlos como vereador se pauta pela posição política e ideológica do MR-8, em assumir explicitamente a disputa da classe operária com a oposição burguesa pela direção do centro da luta contra a ditadura, que assim foi explicitada em documento:

"...que a classe operária e o povo organizados numa ampla e vigorosa Frente Popular constituam o núcleo de uma força política que esmague a ditadura, desmantele seus aparelhos de repressão, e constitua em seu lugar um poderoso Governo Popular que, sendo a principal expressão de poder político na nova realidade, libere a energia criadora do povo em sua luta pela completa democratização da sociedade e pelo fim de toda exploração de classe." (outubro de 1979 - MR-8)

Os discursos e panfletos de Antônio Carlos, em 1978-1979 também apontam este caminho.

Comício do 1° de maio de 1979 da Intersindical, contra o arrocho salarial e pela anistia ampla, geral e irrestrita

 

 

 

 
Comício na favela do Jacarezinho em 1976, pela
urbanização e pela posse da terra

Teve destacada e corajosa atuação na campanha da Anistia e na reconstrução da UNE.

Tonico em passeata pela anistia ampla, geral e irrestrita, em 1979, com Iramaya Benjamin, do Comitê Brasileiro pela Anistia - CBA/RJ

Ameaçado durante dois anos pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC) (fac-símile de carta do CCC), em 1980, enfrentou com seu próprio sangue a violência e a repressão policial em defesa do prédio da UNE, na praia do Flamengo, que a ditadura pretendia demolir. Denunciou de forma enérgica o terrorismo fascista que multiplicava seus atentados no início da década de 1980.

Antônio Carlos e os deputados Raymundo de Oliveira e José Eudes no ato público contra a demolição do prédio da UNE em 10/06/1980

 

Antônio Carlos, ensanguentado, denuncia a truculência da PM contra os manifestantes durante a tentativa de demolição do prédio da UNE na praia do Flamengo

É vítima de um atentado através de uma carta-bomba enviada ao seu gabinete na Câmara de Vereadores, que mutila seu tio e companheiro de luta, José Ribamar Freitas.

Antonio Carlos foi vereador até 1982, mas com uma intensa atividade política nacional viaja pelo Brasil estimulando a organização e resistência popular contra a ditadura.

Fotos: Fotos sem Fronteira

D. Pedro Casaldáliga na inauguração da igreja erguida no local da cadeia onde foi assassinado o padre João Bosco, Ribeirão Bonito, Araguaia, em outubro de 1977
Tonico presente à inauguração da igreja, em solidariedade à resistência dos
camponeses na luta pela terra

Antônio Carlos apoia a causa palestina, a revolução nicaragüense e demais lutas dos povos contra o imperialismo e pela construção do socialismo. Em 1980 integra a primeira delegação de parlamentares brasileiros a visitarem Cuba depois do golpe de 64, em solidariedade à revolução cubana.

Com Fidel, na primeira delegação de parlamentares a visitar Cuba antes do reatamento, 1980

Tonico, com Luíz Antônio Ragon, em ato pelo reconhecimento diplomático da OLP e de protesto contra o massacre de Sabra e Chatila - Rio, 16/08/1982
 

No início da década de 80, o MR-8 começa a rever suas posições de luta pelas liberdades democráticas, até então de acordo com uma estratégia de derrubada revolucionária da ditadura militar. A 'nova' posição é influenciada pelo aprofundamento da crise do movimento comunista internacional, pelo peso do revisionismo no campo revolucionário, que se expressa no abandono, na diluição da luta ideológica e dos princípios do marxismo-leninismo. Em agosto de 1982, em seu III Congresso, e com a publicação, em 1985, do informe do Comitê Central para este Congresso, o MR-8 apresenta uma outra formulação política para a “revolução” brasileira, que tem como centro uma visão da questão nacional em que, na luta pela independência nacional, ficam diluídos os interesses e contradições de classe e o caráter de classe do Estado brasileiro e da democracia burguesa.

A partir desta posição, o MR-8 começa a priorizar o trabalho de articulação política da 'frente', um trabalho eminentemente de cúpula, com a prioridade de alinhavar uma aliança com uma burguesia nacional, que apresentaria suposta contradição antagônica com o imperialismo. Assim, abandona gradativamente o trabalho de massas, o trabalho de elevar o nível de organização e educação política da classe operária e das massas populares, de organizar a força política que garantisse, na teoria e na prática, a hegemonia da classe operária no bloco de classes revolucionárias organizadas na frente política contra a ditadura.

Depois de 1982, já sem o mandato parlamentar, como membro da direção executiva do PMDB do Rio de Janeiro e do Comitê Central do MR-8, integrou as lutas pelo fim da ditadura, com a derradeira campanha pelas eleições diretas (Diretas Já), contra o FMI, em defesa da Amazônia e apoiou a greve geral dos trabalhadores em 1983 contra a política econômica do governo.

Comício pelas eleições diretas, em 1984, na Candelária

Com o fim da ditadura, em 1985, Tonico manteve suas convicções ideológicas, pautando sua atuação política, com acertos e erros, decorrentes da linha política-ideológica do MR-8, sempre com o objetivo de defender o povo, a democracia e o socialismo. A história de Antonio Carlos acompanha e confunde-se com a história política do MR-8. Em sintonia com a nova estratégia desta Organização, articulou e mobilizou a militância para as convenções do PMDB e participou da administração no governo do estado do Rio de Janeiro, por indicação do PMDB. Integrou o Comitê Central do MR-8 de 1976 até sua morte, em 26 de novembro de 1993, vítima de Aids. Casou-se duas vezes, e deixou seis filhos (fotos).

Por sua integridade, destemor, determinação e companheirismo, Tonico era admirado e respeitado mesmo por aqueles que dele divergiam. Até hoje é lembrado como um contundente agitador e exemplo de comportamento diante da tortura e por seu otimismo no futuro, na construção de um Brasil e um mundo sem miséria e exploração, na sociedade comunista.

Alguns companheiros que participam e apóiam o CECAC foram amigos e camaradas de Tonico. Com ele militaram e testemunharam sua dedicação ao povo brasileiro e aos povos de todo o mundo. Por essas suas características, Antonio Carlos Carvalho dá nome ao nosso Centro Cultural.

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fevereiro/2005